sábado, 28 de fevereiro de 2015

A Raiz da Timidez

Conforme o filho vai crescendo, os pais mostram-lhe o que ele deve ou não fazer. Aos poucos, vão concedendo algumas permissões. Quando estas faltam, e no seu lugar há censuras sucessivas, críticas e reprovações ás suas iniciativas, a criança pode crescer sentindo-se tão "proibida", a ponto de ela mesma proibir-se de fazer algo. Daí resulta a timidez, um transtorno no comportamento do ser humano. Mas, a criança hiper saciada também pode tornar-se tímida, afinal os pais hiper solícitos atendem a todas as suas vontade, e ela não aprende a se virar sozinha.

Basta a ela sentir-se desacompanhada dos pais, em ambiente diferente ou diante de qualquer pessoa estranha, que logo se vê atacada pela timidez. A timidez é antinatural. O primeiro sinal de contato - isto é, de manifestação de relacionamento - do bebê com o mundo é o sorriso, o adulto desarma-se diante do sorriso de uma criança, pois sabe que não existem segundas intenções. Trata-se apenas de um sorriso. Pura expressão de alegria.

Uma criança sorridente é uma criança simpática, o orgulho dos pais. Por volta do oitavo mês de vida, quando passa a não querer ir para o colo de estranhos, torna-se antipática. Alguns pais não admitem essa reação, forçando o bebê a aceitar a pessoa que lhe é estranha, como se fosse seu amigo íntimo. é assim que começa o mecanismo de auto-repressão da criança. Cada vez que os pais a reprovam por não aceitar alguém, ela mesma a aciona, reprimindo suas defesas naturais para receber a aprovação dos pais. E assim deixa de ser espontânea. A timidez é a perda da espontaneidade.

A criança aprende fazendo tentativas. Erros e acertos são fundamentais. Se os pais não aceitarem os erros, criticando duramente o filho, ele próprio deixará de aceitar seu erros, perdendo, então, a liberdade de arriscar. Resta-lhe a obrigação de acertar sempre.

Acertar é agradar aos pais. logo, esse acerto é subjetivo, pois depende do critério que os pais utilizam para aprovar ou não a atitude dos filhos. a timidez é a perda da liberdade de tomar iniciativa.uma educação severa, em que o erro é castigado e o acerto nem sempre é premiado, gera pessoas tímidas. Portanto, a timidez pode ser resultado de pais muito exigentes.

Quando a repressão é muito grande, a criança amolda-se e sofre calada. Caso não se adapte à repressão, ela seleciona ambiente em que pode ficar quieta e nos quais pode bagunçar. Essa é a explicação para aquelas crianças tímidas na escola e super bagunceiras em casa ou tremendamente obedientes em casa e indisciplinadas fora dela. elas obedecem parcialmente à repressão na presença dos repressores. Na ausência deles, passam a reprimir os outros, a "delinquir". É o método de gangorra: de um lado senta a timidez, do outro a delinquência.

texto baseado no livro: Disciplina na medida certa(Içami Tiba)

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Um outro olhar para o consumo do álcool

Aproveitando este término de carnaval, que é muito extravasamento em todos os sentidos, resolvi colocar um texto do autor Rudiger Dalke, estudioso da medicina psicossomática, sobre o que leva uma pessoa, inconscientemente, é lógico, a consumir álcool.

"O álcool é a droga de evasão clássica de nossa sociedade. Justamente onde a propaganda sugere o contrário, é evidente que são especialmente as pessoas que não podem suportar o homem que têm em si em nenhum sentido, porque são muito moles, que tendem à bebida. Enquanto os bebês têm o direito de ficar agarrados à mamadeira, nos adultos o que isso mostra é a dependência e a tendência à regressão, à fuga. os outros sintomas do alcoolismo também acentuam essa tendência : a pessoa cambaleia como uma criança que ainda não aprendeu a andar com segurança, e balbucia, como se ainda não dominasse a fala. O fato de que o álcool seja um forte narcótico evidencia ainda que alguém não quer admitir para si mesmo, e sim encobrir e anestesiar a dor causada pelo fracasso. Essa imagem parece contradizer totalmente aquela mais corriqueira do alcoólico, brutal, durão e excessivamente masculino. Entretanto, essa demonstrações superficiais de masculinidade violenta, bem como de potência ostensiva, não passam de tentativas ofensivas de compensação da própria insegurança e fraqueza. Tampouco deveríamos deixar-nos enganar por tentativas de beber para criar coragem, achando que a covardia é a mãe da cautela, ainda que o todo resulte em uma impotência estéril. É o desejo de se atordoar para não ter de ver a situação em que se está realmente, ou justamente em que não se está."

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Rituais da medicina moderna

RITUAIS DA MEDICINA MODERNA

Na antiguidade, a vida começava com um ritual de nascimento e terminava com um ritual de morte. Hoje em dia, ambos foram transferidos em grande parte para as clinicas, transformando-as em refúgios de ritos inconscientes. Os rituais predominantes na medicina podem ajudar-nos a entrever o valor geral da ritualística para os processos de cura, devendo portanto ser considerados de maneira mais minuciosa.
Com o necessário olhar aguçado, pode-se encontrar nas clínicas modernas uma desconcertante quantidade de mágica, à altura de qualquer curandeiro. Em tempos arcaicos, quando os pacientes se entregavam aos cuidados dos curandeiros, precisando confiar inteiramente no outro mundo destes últimos, eles perdiam todos os direitos de autodeterminação e entregavam-se a Deus e, portanto, aos xamãs que o representavam. Hoje em dia nós encenamos um efeito semelhante de maneira mais ostentosa. O paciente moderno também abdica de seu direito à autodeterminação, em geral já na recepção. Esta continua sendo um lugar essencial de qualquer clinica, guardando o limiar do outro mundo assim como o faziam antigamente as portas do templo. Devido à sua invisibilidade e a temática da doença, sentida por trás de tudo, o mundo que está além da recepção provoca angústia. De maneira correspondente, não é raro que os pacientes se sintam oprimidos por todas as coisas que vêm até eles e que eles não compreendem. os antigos deviam sentir-se de maneira semelhante ao entrar em um templo de Esculápio(Deus da cura) em busca de cura, com a diferença de que o faziam de forma mais consciente.
Faz parte do ritual ser colocado na cama por uma enfermeira tal como se fossem crianças, isso depois de obedecer á ordem de se despir, assim como o fato de que não podem mais decidir por si mesmos quando devem ir para a cama e quando devem se levantar. Tem inicio o retrocesso ao nível de responsabilidade de uma criança. Aqui a cabeça, que representa o comando central, não pode ser mantida erguida, devendo por princípio reclinar-se. Dessa maneira assegura-se também que os pacientes estejam aos pés dos médicos, ao menos fisicamente, manifestando-se com clareza que discussões de igual para igual estão fora de questão. Para eles, não resta muito para conversar e praticamente nada que possam decidir.
O branco "estéril" usado pelo pessoal clinico, ao qual não pode haver nenhuma exceção. Será que a vivência da medicina é impensável sem o branco porque ele contém em si todas as outras cores e é, portanto, a cor da integridade e da perfeição? Pode-se observar a higienicamente significativa purificação a que se submetem os cirurgiões quando se preparam para uma operação. Eles lavam as mãos por alguns minutos sob água corrente quente enquanto as friccionam agressivamente com sabão líquido e escovas. após este procedimento, as mãos precisam ser lavadas longamente com álcool de alta concentração, em seguida, elas devem ser enfiadas em luvas de borracha esterilizadas. Não há ritual mais dispendioso para a purificação das mãos nem mesmo em cultos conscientemente mágicos.
Deste ponto de vista, so muitos pequenos exercícios de purificação que perpassam o dia-a-dia de uma clinica podem ser reconhecidos como rituais, já que em sua maioria não trazem qualquer benefício higiênico. Até o dia de hoje, o médico sempre lava as mãos até que estejam livres de culpa. Ele também desinfeta a pele no local onde aplicará uma injeção, de uma maneira que , tal como se provou há muito, não tem qualquer sentido do ponto de vista higiênico. Mas os médicos, com razão, não querem abdicar desse ritual, ao qual se afeiçoaram. eles preferem encontrar as racionalizações mais estranhas para, à maneira dos xamãs, preparar de antemão o local do ferimento com traços funcionalmente sem sentido mas que atuam magicamente. Neste caso, o álcool preenche talvez a função desempenhada pela água benta á entrada da igreja. Nenhum dos dois purifica do ponto de vista higiênico, mas ambos purificam e abençoam desde um ponto de vista mais profundo.
A doença continua sendo também regressão, e automaticamente leva as pessoas a uma postura de entrega e de impotência. A posição horizontal do corpo volta a regular algo que antes era evidente um pouco louco: não é a vida que está a nossos pés, mas nós que estamos prostrados frente a ela. Neste caso, qualquer forma de doença dignifica. A postura de humildade combinada a a calma que se instaura e a coação para adaptar-se ao padrão "Seja feita a sua vontade". Quanto mais consciente é a instauração do estado de entrega e o consequente caso ideal de humildade, mais eficaz é o ritual de cura.
O paciente precisa ter a possibilidade de tornar-se consciente da situação fundamentalmente desprotegida em que se encontra. Não é nem a organização hierárquica da clínica nem o jogo de endeusamento que nela tem lugar que colocam realmente em perigo as chances de cura do paciente, mas sim as fantasias de onipotência de médicos cegos para a realidade, que dão a entender que eles têm tudo sob controle, e são justamente esses médicos que jamais encontram a verdadeira ponta da hierarquia, o sagrado. Por essa razão, a crença em uma medicina onipotente e infalível contém em si uma chance de restabelecimento para as pessoas  que acreditam na medicina. No entanto, tendo em vista o questionamento e a busca da dúvida que faz parte da religião científica, esta é uma possibilidade de cura verdadeiramente desesperada.

texto baseado no livro: A doença com linguagem da alma - Rudiger Dalke