domingo, 1 de fevereiro de 2015

Rituais da medicina moderna

RITUAIS DA MEDICINA MODERNA

Na antiguidade, a vida começava com um ritual de nascimento e terminava com um ritual de morte. Hoje em dia, ambos foram transferidos em grande parte para as clinicas, transformando-as em refúgios de ritos inconscientes. Os rituais predominantes na medicina podem ajudar-nos a entrever o valor geral da ritualística para os processos de cura, devendo portanto ser considerados de maneira mais minuciosa.
Com o necessário olhar aguçado, pode-se encontrar nas clínicas modernas uma desconcertante quantidade de mágica, à altura de qualquer curandeiro. Em tempos arcaicos, quando os pacientes se entregavam aos cuidados dos curandeiros, precisando confiar inteiramente no outro mundo destes últimos, eles perdiam todos os direitos de autodeterminação e entregavam-se a Deus e, portanto, aos xamãs que o representavam. Hoje em dia nós encenamos um efeito semelhante de maneira mais ostentosa. O paciente moderno também abdica de seu direito à autodeterminação, em geral já na recepção. Esta continua sendo um lugar essencial de qualquer clinica, guardando o limiar do outro mundo assim como o faziam antigamente as portas do templo. Devido à sua invisibilidade e a temática da doença, sentida por trás de tudo, o mundo que está além da recepção provoca angústia. De maneira correspondente, não é raro que os pacientes se sintam oprimidos por todas as coisas que vêm até eles e que eles não compreendem. os antigos deviam sentir-se de maneira semelhante ao entrar em um templo de Esculápio(Deus da cura) em busca de cura, com a diferença de que o faziam de forma mais consciente.
Faz parte do ritual ser colocado na cama por uma enfermeira tal como se fossem crianças, isso depois de obedecer á ordem de se despir, assim como o fato de que não podem mais decidir por si mesmos quando devem ir para a cama e quando devem se levantar. Tem inicio o retrocesso ao nível de responsabilidade de uma criança. Aqui a cabeça, que representa o comando central, não pode ser mantida erguida, devendo por princípio reclinar-se. Dessa maneira assegura-se também que os pacientes estejam aos pés dos médicos, ao menos fisicamente, manifestando-se com clareza que discussões de igual para igual estão fora de questão. Para eles, não resta muito para conversar e praticamente nada que possam decidir.
O branco "estéril" usado pelo pessoal clinico, ao qual não pode haver nenhuma exceção. Será que a vivência da medicina é impensável sem o branco porque ele contém em si todas as outras cores e é, portanto, a cor da integridade e da perfeição? Pode-se observar a higienicamente significativa purificação a que se submetem os cirurgiões quando se preparam para uma operação. Eles lavam as mãos por alguns minutos sob água corrente quente enquanto as friccionam agressivamente com sabão líquido e escovas. após este procedimento, as mãos precisam ser lavadas longamente com álcool de alta concentração, em seguida, elas devem ser enfiadas em luvas de borracha esterilizadas. Não há ritual mais dispendioso para a purificação das mãos nem mesmo em cultos conscientemente mágicos.
Deste ponto de vista, so muitos pequenos exercícios de purificação que perpassam o dia-a-dia de uma clinica podem ser reconhecidos como rituais, já que em sua maioria não trazem qualquer benefício higiênico. Até o dia de hoje, o médico sempre lava as mãos até que estejam livres de culpa. Ele também desinfeta a pele no local onde aplicará uma injeção, de uma maneira que , tal como se provou há muito, não tem qualquer sentido do ponto de vista higiênico. Mas os médicos, com razão, não querem abdicar desse ritual, ao qual se afeiçoaram. eles preferem encontrar as racionalizações mais estranhas para, à maneira dos xamãs, preparar de antemão o local do ferimento com traços funcionalmente sem sentido mas que atuam magicamente. Neste caso, o álcool preenche talvez a função desempenhada pela água benta á entrada da igreja. Nenhum dos dois purifica do ponto de vista higiênico, mas ambos purificam e abençoam desde um ponto de vista mais profundo.
A doença continua sendo também regressão, e automaticamente leva as pessoas a uma postura de entrega e de impotência. A posição horizontal do corpo volta a regular algo que antes era evidente um pouco louco: não é a vida que está a nossos pés, mas nós que estamos prostrados frente a ela. Neste caso, qualquer forma de doença dignifica. A postura de humildade combinada a a calma que se instaura e a coação para adaptar-se ao padrão "Seja feita a sua vontade". Quanto mais consciente é a instauração do estado de entrega e o consequente caso ideal de humildade, mais eficaz é o ritual de cura.
O paciente precisa ter a possibilidade de tornar-se consciente da situação fundamentalmente desprotegida em que se encontra. Não é nem a organização hierárquica da clínica nem o jogo de endeusamento que nela tem lugar que colocam realmente em perigo as chances de cura do paciente, mas sim as fantasias de onipotência de médicos cegos para a realidade, que dão a entender que eles têm tudo sob controle, e são justamente esses médicos que jamais encontram a verdadeira ponta da hierarquia, o sagrado. Por essa razão, a crença em uma medicina onipotente e infalível contém em si uma chance de restabelecimento para as pessoas  que acreditam na medicina. No entanto, tendo em vista o questionamento e a busca da dúvida que faz parte da religião científica, esta é uma possibilidade de cura verdadeiramente desesperada.

texto baseado no livro: A doença com linguagem da alma - Rudiger Dalke

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