domingo, 29 de março de 2015

A fruta cai no chão para gerar uma nova árvore

Depois que amadurece, a fruta não fica na árvore. Em pouco tempo, ela se desprende do galho e cai. o I Ching - o livro das mutações, ao abordar esse fenômeno da natureza, fala de uma "conexão entre decomposição e a ressurreição" e diz que "é preciso que o fruto apodreça antes que a semente nova possa se desenvolver". Ao se desintegrar, a fruta faz que as sementes entrem em contato com o solo e proporciona o surgimento de novas árvores. A desintegração é apenas uma das fases de um ciclo maior.

Nós, seres humanos, temos tendência a resistir á idéias de mutação, impermanência, término e desintegração. Queremos que as coisas durem para sempre, que nunca mudem. A busca pela constância e pela segurança é natural e, sem dúvida, precismos que a vida tenha certa estabilidade para conseguirmos concretizar nossos projetos de vida. Quando vivemos sem estabilidade, de maneira inquieta e oscilante, com mudanças constantes e bruscas, nos desgastamos demais para que possamos nos adaptar ás novas situações. Com o desgaste, ficamos sem recursos interiores para realizar as coisas mais importantes da vida. Por esse aspecto, a estabilidade é uma necessidade natural e é compreensível que se procure constância e permanência.

Mas tudo na vida tem ciclos e precisamos estar atentos ás exigências do tempo. Como diz o homem do campo"existe tempo para plantar e tempo para colher". Há um tempo certo para a fruta crescer e amadurecer. E, naturalmente, existe um momento em que a fruta se desintegra. Para os sábios chineses, a decomposição da fruta representa a conclusão de uma fase e o início de uma nova etapa da vida da árvore. O apodrecimento da fruta não significa término de tudo, mas uma transformação necessária para que o novo surja. É essa transformação que permite que a vida se renove e se perpetue. No pensamento oriental, essa regra vale tanto para a árvore quanto para o ser humano.

Não temos plena compreensão do que são os ciclos naturais quando se trata da nossa própria vida. Muitas vezes, mantemos determinada situação por apego, hábito, teimosia, dependência, comodismo ou medo de arriscar e mudar. Em muitos casos, agimos como se fôssemos uma fruta madura que não quer se desprender da árvore. Resistimos á idéia de nos lançar no ar por receio de nos machucarmos com a queda. Ficar na árvore é mais seguro e desgarrar-se do galho nos parece perigoso. Contudo, não existe nada nesta vida que seja 100% seguro nem coisa alguma que não envolva risco ou perigo. E, querendo ou não, em algum momento teremos de estar prontos para nos desapegar de situações, coisas e pessoas para poder nos transformar e desenvolver.

texto do livro: "A sabedoria da natureza" - Roberto Otsu

quarta-feira, 25 de março de 2015

Disciplina e auto-estima

A palavra "disciplina" carrega em si um ranço de autoritarismo e de falta de diálogo, que era comum no comportamento das gerações anteriores. Os pais dos adolescentes e das crianças de hoje sentem até um certo mal-estar diante dessa palavra, a ponto de praticamente a banirem da educação dos filhos. É difícil dar nova noção a uma palavra cujo significado já está consagrado.

Em linhas gerais, disciplina é o conjunto de regras éticas utilizadas para atingir um objetivo ou um resultado com menos recursos e em menos tempo. Portanto, disciplina é competência e qualidade de vida. A ética é entendida, aqui, como o critério, qualitativo do comportamento humano que envolve e preserva o respeito ao bem-estar biopsicossocial.

Um dos mais importantes motivos para os pais tentarem delegar a educação dos filhos à escola é preferirem omitir-se do que errar com os filhos. Os pais contemporâneos perderam suas referências educativas, pois o que eles viveram quando crianças não serve mais, e ainda não adquiriram novos recursos para educar estas "criancinhas" tão independentes, cheias de argumentos, alta prontidão nas respostas e reivindicadoras com fortes enfrentamentos.

Na infância, a auto-estima fundamental é alimentada toda vez que uma criança realiza algo e isso pode ser dimensionado. Porém, ser aplaudida ou elogiada quando ela própria sabe que não merece distorce essa auto-estima.

Vamos entender isso melhor: auto-estima é o sentimento que faz com que a pessoa goste de si mesma, aprecie o que faz e aprove suas atitudes. Trata-se de um dos mais importantes ingredientes do comportamento humano - é um item fundamental para estabelecer a disciplina. Pode ser essencial ou fundamental. A essencial é a que a criança recebe dos seus pais assim que nasce, simplesmente porque nasceu, porque é seu filho (supondo que todos pais sejam normais, todas crianças tem essa auto-estima essencial); a fundamental é conquistada quando uma pessoa é bem sucedida nas suas pretensões; quando ela própria aprecia algo que realizou e fica feliz com o que fez.

Quando os pais fazem tudo pelo filho, mesmo o que ele próprio é capaz de fazer, estão prejudicando essa auto-estima. O primeiro prejuízo é dele mesmo, por não ter realizado aquilo de que era capaz.porém, o prejuízo maior decorre da evolução desse processo, pois, não fazendo, ele acaba perdendo a capacidade de fazer, piorando muito sua auto-estima.

Quanto melhor for a auto-estima fundamental, tanto mais a pessoa se torna disciplinada. Por sua vez, a disciplina aumenta a auto-estima. Nutre-se, desse modo, este ciclo disciplina-auto-estima.
   

quarta-feira, 18 de março de 2015

Porque algumas pessoas se relacionam de forma doentia?

Amor, pode ser compreendido como o sentimento básico e necessário para o existir de qualquer individuo. Ele assume características universais (sentimento de união entre um grupo/povo) e singulares (laços de amor dentro de uma família). Neste texto, vamos destacar o vínculo amoroso entre duas pessoas, o casal, seja hétero, homossexual, e que assume características paradoxais, entende-se, o amor que leva à dor, ao sofrimento e até à morte passional de um dos parceiros, agregando um grau de patologia à relação. o que levaria os amantes a essa situação ou quais as causas desse tipo de amar?  A resposta para tão importante questão inicia-se pela discriminação entre causas internas - ligadas às características de personalidade de cada cônjuge e às influências externas e aos modelos das famílias de origem de cada um - e fatores sociais e econômicos associados á vida atual.

Para aprofundar o entendimento dos aspectos intrínsecos ao modo de se relacionar, temos que deter nossa atenção às motivações conscientes e inconscientes para escolha dos parceiros. As motivações conscientes são, no geral, aquelas denominações mais comuns que encontramos nos apaixonados: atração envolvendo aparência física e características de personalidade, admiração por o que o outro é e, ás  vezes, pelo status social que ocupa. 

Paixão, envolve um processo de idealização do outro, cujo mecanismo, muitas vezes, constitui-se numa projeção maciça de um sobre o outro, dificultando a percepção real do parceiro = a - 1 + 1 = 1.- amor fusional. Ex: moça superprotegida pelos avós e mãe, para suprir a falta do pai, se apaixonada por um rapaz protetor e carinhoso, onde não permite que ela faça nada sozinha ou sem avisá-lo. Inicialmente, ela interpreta essa atitude ciumenta sendo amor por ela, com o tempo ele vai cerceando e controlando cada vez mais a vida dela, onde ele se defende dizendo que a ama muito e por isso não suporta vê-la se relacionando com ninguém, onde ele está propondo um pacto inconsciente de torná-la um prolongamento seu.

Na maioria das vezes, a convivência mútua ao longo do tempo vai sobrepondo o EU real de cada um e com isso atingimos a des(idealização), que gera como consequência o término da paixão e o inicio de um amor mais maduro( com o respeito às individualidades de cada um) ou, de modo mais drástico, o rompimento da relação("ele/ela não era o que EU pensava").

Quanto às motivações inconscientes para a escolha do par, retomamos a influência dos modelos presentes nas famílias de origem. A escolha amorosa também é determinada por um mecanismo de transmissão psíquica inconsciente cujo material que a compõe pode estar em gerações passadas e ser a causa do estabelecimento dos vínculos patológicos no casal atual - transmissão transgeracional = por atravessar gerações e se impor em estado bruto aos descendentes, possui conteúdos não elaborados, negados, da ordem do segredo ou de algum trauma que, ocorrido numa dada geração é recalcado e surge em geração posterior por meio de sintoma(s) individual ou de patologias na forma de se relacionar. Temos aqui, então, uma das causas do amor patológico, compreendido dentro desse referencial. Ex: mulher cresce em ambiente agressivo, onde presencia pai xingando ou batendo na mãe, pode casar com homem igual ao pai, mesmo que no inicio ele não apresente nenhum sinal de que isso irá acontecer, mas com o tempo de casado pode aparecer este lado no marido.

Embora a sociedade atual pressuponha a igualdade de gêneros, na família e nos relacionamentos amorosos, ainda encontramos a presença dos estereótipos ligados aos papéis masculino/feminino, vistos desde o passado como: homem forte, viril e protetor/mulher frágil, submissa e cuidadora. Mesmo que essa complementaridade acabe ficando a serviço de um amor patológico como nos exemplos comentados acima, em que os parceiros passam a ocupar lugares de vítimas e algoz. Citando a existência de outros pares como so sadomasoquistas por um lado e os indivíduos introvertidos que buscam os extrovertidos por outro, enfatizamos, nessas escolhas, um tipo de amor adesivo que pode levar ao seu reverso - o ódio, ou a uma vivência estagnada, na medida em que esses casamentos/parcerias são difíceis de ser rompidos e não permitem a flexibilidade nos lugares ocupados pelos sujeitos.

texto baseado no artigo da revista: Psicologia

segunda-feira, 9 de março de 2015

Conhecendo um Pouco da Gestalt Terapia



Gestalt-terapia, embora formalmente apresentada como um tipo de psicoterapia, é baseada em princípios que são considerado como uma forma saudável de vida, em outras palavras, é primeiro uma filosofia, uma forma de ser, e com base nisto, há maneiras de aplicar este conhecimento de forma que outras pessoas possam beneficiar-se dele.

A filosofia da gestalt serve como uma orientação de vida, um lembrete de que a consciência é sempre útil, e oferece técnicas e estratégias específicas que podemos usar para caminhar em direção a uma maior tomada de consciência.

Na gestalt-terapia a maturidade é alcançada desenvolvendo-se o próprio potencial do individuo, diminuindo-se o apoio ambiental, aumentando-se a tolerância à frustração e desmascarando sua representação falsa de papéis infantis e adultos. Ele passa a se sustentar sobre seus próprios pés, tornando-se capaz de lidar com seus próprios problemas e com as exigências de vida.

A gestl-terapia procura levar à integração sem a urgência de situações de emergências. uma técnica de integração é o trabalho com sonhos. o sonho é uma mensagem existencial, diz ao paciente qual é a situação de vida e especialmente como modificar o pesadelo de sua existência, tornando-se consciente e assumindo seu lugar histórico na vida. o paciente encena todos os detalhes de seu sonho. 

Como terapeutas, não imaginamos que sabemos mais do que o próprio paciente, assumimos que cada parte do sonho é uma projeção. Cada fragmento do sonho, cada pessoa, coisa, estado de espírito, é uma porção de self alienado. Partes do self devem encontrar-se com outras, o encontro básico, é claro, ocorre entre dominador e dominado.

A filosofia básica da gestalt-terapia é a da natureza: diferenciação e integração. A pessoa terá a possibilidade de ver uma situação total(uma gestalt) sem perder os detalhes. A capacidade de renunciar, de abandonar respostas obsoletas e abrir mão de relacionamentos esgotados e, de tarefas além do próprio potencial, é parte essencial da sabedoria de viver.

texto baseado no livro"isto é gestalt"

Pequeno Trecho do Livro "Escarafunchando Fritz"

 Fritz Perls - Criador da abordagem psicoterapêutica Gestalt terapia.

"É óbvio que o potencial de uma águia será real no vagar pelo céu, ao mergulhar para pegar pequenos animais para comer, e na construção de ninhos.

É óbvio que o potencial de um elefante será atualizado através do tamanho, força e desajeitamento.

Nenhuma águia quer ser elefante e nenhum elefante quer ser águia. Eles se "aceitam", aceitam seu "ser" (them "selves"). Não, eles nem mesmo se aceitam, pois isto significaria uma possível rejeição. 

Eles se assumem por princípios. Não, não se assumem por princípios pois isto implicaria numa possibilidade de ser diferente. eles apenas são. Eles são o que são, o que são.

Quão absurdo seria se eles, como os humanos, tivessem fantasias, insatisfações e decepções. Como seria absurdo se o elefante cansado de andar na terra, quisesse voar, comer coelhos e botar ovos. E que a águia quisesse ter a força e a pele grossa do elefante.

Que isto fique para o homem! - tentar ser algo que não é - ter ideais que não são atingíveis; ter a praga do perfeccionismo de forma a estar livre de críticas, e abrir a senda infinita da tortura mental.

Amigo, não tenha medo de erros. Erros não são pecados. Erros são formas de fazer algo de maneira deferente, talvez criativamente nova.

Amigo, não fique aborrecido por seus erros. Alegre-se por eles. Você teve coragem de dar algo de si.

São necessários anos para centrar-se em si próprio e mais algum tempo para entender e ser agora."