quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O adoecimento da relação amorosa

Em nossa cultura existe o mito de que amar é apenas igualdade. O amor é confundido com anulação de si mesmo. É preciso compreender que quando nos anulamos deixamos de existir em nossas diferenças, experimentamos um vazio, uma agonia e uma solidão profundos, o que impede a possibilidade amorosa. Estamos detidos e fechados em nosso sofrimento.

Relacionar-se e construir intimidade é um processo que passa por várias etapas ou ciclos, segue ritmos e apresenta questões, temas e desafios que, se conseguirmos atravessar, nos levam ao estágio seguinte em contínua transformação.

Um dos obstáculos comuns no caminho da intimidade é a frustração. a medida que amadurecemos, tomamos consciência de nossas expectativas irrealizáveis, o que diminui nossas frustrações e insatisfações. Reconhecer as expectativas torna o relacionamento mais íntimo, gera confiança e aceitação, pois nos possibilita enxergar nosso parceiro tal como ele é, e não como gostaríamos que fosse.

A relação amorosa é uma das mais fecundas possibilidades de transformação, crescimento e realização do potencial humano. É um encontro com o sagrado. encontrar o outro fora de nós é encontrá-lo dentro de nós, com todos os seus recursos e aspectos sombrios, e em contínua transformação.

Uma vida sem amor revela adoecimento, pois a condição humana original está impedida de se realizar.

Uma história vietnamita ilustra esse adoecimento quando há a perda da abertura, a própria amorosidade:
"O marido tinha de ir para a guerra e partiu, deixando a esposa grávida. Três anos depois, quando ele voltou, a esposa foi até o portão da vila para dar-lhe boas vindas, levando o filho deles. Quando os dois jovens se entreolharam, não conseguiram conter as lágrimas de alegria. Sentiram-se gratos por seus ancestrais os terem protegido. Então o rapaz convidou a mulher a ir ao mercado comprar frutas, flores e outras oferendas para colocar no altar de seus antepassados.

Enquanto ela estava fazendo compras, o jovem pai pediu ao filho que o chamasse de papai, mas o garoto recusou-se. "O senhor não é meu pai! Meu pai costumava vir toda noite, e minha mãe conversava com ele e chorava. Quando mamãe se sentava, papai se sentava; quando mamãe se deitava, papai se deitava também." Bem no momento que o pai ouviu essas palavras, seu coração se transformou em pedra.

Quando a esposa voltou, ele nem conseguiu olhar para ela. O rapaz ofereceu frutas, flores e incenso aos ancestrais, fez reverências e depois enrolou o pequeno tapete destinado a este fim, mas não permitiu que ela participasse do ritual. Acreditava que sua mulher não era digna de apresentar-se perante os ancestrais. Em seguida, saiu de casa e passou dias bebendo e vagando pela cidade. A esposa não podia compreender por que ele estava agindo assim, finalmente, depois de três dias, ela não suportou mais; atirou-se no rio e afogou-se.

À noite, após o funeral, quando o pai acendeu a lamparina de querosene, o filho gritou: "Lá está meu pai!!! Apontou para a sombra do pai projetada na parede e gritou: "Papai costumava vir toda noite exatamente assim, minha mãe falava com ele e chorava. Quando minha mãe se sentava ele se sentava. Quando minha mãe se deitava ele se deitava." Ela se lamentava para a sombra. "Querido, você está fora há tanto tempo. Como posso criar uma criança sozinha?" Certa noite o menino perguntou-lhe quem era seu pai e onde ele estava. Apontando para a própria sombra na parede, ela respondeu:"Este é seu pai." Tinha sempre muita saudade dele.""

Esta é uma história triste, infelizmente muito comum. Há separação e perda, há fechamento do coração. O fechamento simbolicamente carrega a morte da abertura, da receptividade, da leveza, da esperança, representada pela esposa na história.

Há uma divisão dolorosa, com perda de confiança e cumplicidade, um estado de ameaça e solidão. O diálogo é interrompido, e a disponibilidade para o outro se desvanece. Crê-se saber tudo que é preciso, sem contar com a perspectiva do outro, que fica impedido de participar das decisões e é excluído; excluído também é o aspecto de si mesmo vinculado ao outro.

A escolha de separar-se não emerge do contato com a experiência presente, do contexto relacional, seja do confronto e das diferenças, seja de uma traição aos acordos firmados; ela emerge de uma posição defensiva, que procura evitar o sofrimento e, justamente por isso, o instaura.

O marido, ao querer guardar seu orgulho e sua honra, fechou-se às demais possibilidades, tentando evitar o sofrimento. Com isso desperdiçou qualquer chance de compreender o que acontecia, temendo perder um aspecto de si mesmo que, no fundo, já estava "perdido". Ao invalidar seu amor pela esposa e o dela por ele, bem como a experiência compartilhada, supondo uma traição não confirmada, criou o destino que mais temia.

A abertura para o outro nos leva necessariamente a rever nossos medos, nos quais fomos feridos, e por conseguinte as estratégias defensivas que desenvolvemos, muito úteis em outros contextos da vida, mas que obstruem as possibilidades amorosas no presente, porque nos impedem de exercer a capacidade criativa em nossas relações. Não há como ser criativo sem ser aberto ao aqui e agora.

(texto baseado no livro: laços e nós - Beatriz Helena paranhos Cardella)

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